Artigo do colunista Paulo Silas Filho no sala de aula criminal, vale a leitura! "Cada vez mais se lançam luzes sobre a existência das mais diversas espécies de violência contra a mulher que perpetuam na contemporaneidade. Pudera, dado que o fenômeno da violência de gênero está presente nas mais diversas e diferentes camadas sociais, tratando-se de uma espécie de agressão que acontece independentemente de classe, cor, religião ou âmbito qualquer. Daí serem adequadas e pertinentes as tantas frentes que chamam a atenção para esse problema, apontando-o a fim de que possa ser melhor compreendido em suas raízes e devidamente combatido". Por Paulo Silas Filho “A Língua do P” é um conto de Clarice Lispector que está presente no livro “A Via Crucis do Corpo”, uma obra mais direta, nua e crua da autora em que temas como a violência e a sexualidade feminina são abordados sem muita sutileza nas narrativas que nela estão presentes.
No conto em questão, tem-se a história de Cidinha, uma professora de inglês que não é nem rica nem pobre, apenas remediada. Moradora de Minas Gerais, a personagem toma um trem para o Rio de Janeiro, ocupando um vagão vazio – a não ser por uma senhora situada no canto que dormia durante o trajeto. Na parada em certa estação, adentram ao trem dois sujeitos que se sentam bem em frente ao local ocupado pela professora. Assim que tomam assento, um mal-estar já se faz presente no ambiente, o que é alargado quando os homens olham diretamente para a mulher em sua frente. Angustiada pela situação, Cidinha desvia o olhar, passando então os rapazes a ficarem em peculiar estado de alerta e a professora inquieta em estado de justificável aflição. Essa passagem inicial do conto já é suficiente para se ter uma ideia de uma espécie de medo que aflige especificamente a mulher na sociedade. Cidinha está sozinha no vagão do trem quando os homens adentram ao mesmo local e permanecem em sua frente, olhando-a. Mesmo que até esse momento inicial nada seja dito, o ato em si já basta para causar preocupação. O efeito simbólico das ações mais do que basta para repercutir no necessário estado de alerta que aflige a professora no trem. O que podem fazer aqueles dois homens? Para quem a mulher pode gritar por ajuda? Qual é a melhor postura a ser adotada pela professora a fim de manter a própria integridade em razão do receio ou do risco do que pode vir a acontecer? Essas questões passam a ocupar a mente de Cidinha em total estado de preocupação. O conto avança. Não bastasse a situação sem falas que já era suficiente para causar temor, os homens passam então a conversar entre si. A conversa, porém, não é assimilada de pronto pela mulher, parecendo ser algo cifrado. Não chega bem a ser outra língua, mas é como se um código ali existisse a fim de impedir que o vernáculo fosse compreendido enquanto tal. Ao focar a atenção no que estava sendo dito, a professora reconhece a fala dos homens como sendo a língua do ‘p’: o próprio bom e velho português, mas com as palavras intercaladas em todas as sílabas por novas sílabas iniciando em ‘p’. Assim, Cidinha compreende que quando um homem diz ao outro “queperopo cupurrapar apa mopoçapa está a dizer “quero currar a moça”, sendo assentida a intenção que se demonstra mútua pelo interlocutor. A desconfiança de que havia algo errado é assim confirmada pela personagem. O desespero, por óbvio, aumenta, passando Cidinha a sofrer a angústia de em breve se ver vítima de estupro assim que o trem chegasse ao túnel como haviam combinado os homens entre si, estes que que chegam inclusive a planejar a morte da mulher caso oferecesse resistência. Assombrada pelo que estava prestes a acontecer, Cidinha tem a ideia de se fingir de prostituta, intencionando assim que os rapazes desistissem da empreitada criminosa por não gostarem de vagabunda. Foi o desespero que lhe fez agir sob tal premissa, torcendo para que funcionasse. Assim segue então a narrativa: “levantou a saia, fez trejeitos sensuais – nem sabia que sabia fazê-los, tão desconhecida ela era de si mesma – abriu os botões do decote, deixou os seios à mostra. Os homens de súbito espantados”. Para espanto e alívio da professora, a tática funciona, em que pese a condição de vítima em potencial passe para a de vítima concreta, mas em outro nível: os homens passam a gargalhar da atuação de Cidinha; o bilheteiro aparece, vê a cena e nada faz, mas comunica o ocorrido ao maquinista; assim que o trem chega na estação seguinte, a polícia é acionada para conter a professora, que é agarrada com brutalidade e encaminhada pelo policial “ao xadrez e lá fichada”; na prisão em que fica reclusa por três dias, é xingada dos piores nomes; quando finalmente liberta, tendo que reorganizar seus afazeres, topa com a notícia em um jornal de que uma moça havia sido estuprada e morta no trem: os rapazes seguiram com o pretendido crime, tendo apenas mudado a vítima. O conto é curto, apenas quatro páginas, mas carrega em si uma grande carga de significados possíveis a serem constatados por leituras interpretativas da história. Nesse sentido, é uma narrativa tipicamente clariciana, tendo-se o enfoque em temas existenciais como a angústia, a descoberta de si própria, a condição inerentemente humana que é constatada a partir do medo vivenciado pela personagem que resulta em uma rápida epifania e a priorização da narrativa voltada para os sentimentos da personagem para além das suas ações. Chama-se aqui a atenção para a condição mulher na sociedade atual, cujo medo cotidiano das violências possíveis de serem sofridas é algo que se destaca na trama. Cada vez mais se lançam luzes sobre a existência das mais diversas espécies de violência contra a mulher que perpetuam na contemporaneidade. Pudera, dado que o fenômeno da violência de gênero está presente nas mais diversas e diferentes camadas sociais, tratando-se de uma espécie de agressão que acontece independentemente de classe, cor, religião ou âmbito qualquer. Daí serem adequadas e pertinentes as tantas frentes que chamam a atenção para esse problema, apontando-o a fim de que possa ser melhor compreendido em suas raízes e devidamente combatido. Enquanto alguns insistem em negar aquilo que concretamente se constata enquanto uma espécie própria de violência que é vivenciada pela mulher, diversas são agredidas, estupradas, ofendidas, humilhadas, mortas e vilipendiadas das diversas formas, evidenciando que alertar e chamar a atenção para o problema da violência contra a mulher é algo que precisa continuar sendo difundido, buscando-se adequar e aprimorar medidas que visam combater essa problemática. O conto de Clarice Lispector corrobora para o que aqui se observa enquanto constatação da necessidade de se enfatizar a importância das políticas, medidas e ações que escancaram o problema da violência contra a mulher no Brasil. Pela literatura aqui comentada, é possível ter um contato aproximado com o pavor sentido pelas mulheres que lhes pode acometer em situações cotidianas como o simples ato de se fazer uma viagem em vagão de trem. Os motivos que levam a isso são vários, pululando os fatos concretos que ocorrem no dia a dia e que apontam para uma sociedade que faz com que a mulher tema por sua integridade em qualquer situação apenas pelo fato de ser mulher. A narrativa ficcional de Clarice está muito mais próxima da realidade do que uma leitura ingênua pode se fazer supor. Paulo Silas Filho Professor, advogado e escritor.
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